30.9.05

Cartas na mesa

Co Adriaanse, no site Mais Futebol:

«Tenho 58 anos e não vou mudar», explicou o técnico, acrescentando posteriormente: «Os adeptos terão de esperam. Se começaram a assobiar, a acenar lenços brancos, eu vou embora. São os adeptos que decidem. Se acharem que não sirvo, então a direcção cometeu um erro, porque sabiam como eu era quando me foram buscar. Se quiserem, eu vou-me embora e podem ir buscar outro, mais seguro, mais defensivo. Há muitos treinadores assim, a jogar com poucos avançados, e também conseguem bons resultados dessa forma».

Acho que a derrota do Porto com o Artmedia merece uma grande reflexão por parte do grupo de trabalho, de modo a avaliar o que está bem e o que deve ser corrigido. Mas o desprendimento demonstrado pelo técnico holandês é um bom exemplo e, pelo menos, demonstra confiança no seu trabalho. Aliás, é bem contrastante com o triste exemplo de Peseiro, no Sporting.
Por outro lado, se o Porto for rumo ao precipício, ele pode sempre dizer que estavam todos devidamente avisados…

29.9.05

Azares...

A prestação do FC Porto ontem veio confirmar o que muitos já suspeitavam: o balanceamento exagerado da equipa para o ataque, de forma desenfreada, esconde carências graves na defesa e a rapidez do jogo, que em alguns momentos chega a ser frenético, ultrapassa a prória velocidade de pensamento dos jogadores. É um estilo de jogo que valoriza muito o caudal ofensivo e a velocidade de jogo, o que promove o espectáculo, mas à custa da perda de eficácia e com compromisso grave da defesa. As equipas adversárias são apanhadas desprevenidas inicialmente mas logo se apercebem que basta recuar um pouco e jogar em contra-ataque para enervar facilmente a ingénua equipa do FC Porto que não apresenta a maturidade suficiente para controlar um jogo.

28.9.05

Professor Antunes Varela


Faleceu um dos maiores vultos do Direito português, João de Matos Antunes Varela. (via Blasfémias)
Lamentavelmente, nenhum órgão de comunição social português dedicou um ínfimo espaço à notícia da morte do pai do nosso Código Civil e de um dos mais insignes juristas do seu tempo.
Talvez se soubesse marcar livres...

27.9.05

A ler

Este post de Pedro Magalhães, no Margens de Erro, sobre a interpretação abusiva que se fez à sondagem publicada no Correio da Manhã.

Delírios

Ontem, ao ouvir Manuel Maria Carrilho a prometer a criação 500 empresas, que assegurariam mais de 8 mil novos postos de trabalho em Lisboa, lembrei-me das delirantes propostas de Vale e Azevedo, como o famoso empréstimo obrigacionista, antes de ser eleito presidente do Benfica. O tom utilizado e a substância das propostas eram exactamente os mesmos…




P.S. Concordo com o Joaquim. O resultado das autárquicas não deve ter qualquer significado nacional. Foi um precedente grave que se abriu com Guterres. Nas eleições autárquicas deve-se avaliar a actuação dos respectivos executivos camarários e não o governo.

26.9.05

Inversão de papéis

É interessante notar como se começam a posicionar os partidos em relação aos resultados das próximas eleições autárquicas. O líder do PSD, Marques Mendes, exigiu ontem a divulgação do Orçamento de Estado para 2006 antes de 9 de Outubro alegando que se o Governo não o fizer estará a ter uma atitude "pouco séria" uma vez que pretende esconder os sacrifícios que os portugueses terão que enfrentar no próximo ano. Ora, esta exigência de Marques Mendes só prova que o PSD quer retirar, a partir dos resultados eleitorais autárquicos, consequências políticas para o Governo de Sócrates. Levando o tema do Orçamento de Estado à campanha eleitoral autárquica, o PSD acena, de forma hábil, com as medidas duras e inevitáveis que o Governo terá que tomar para o ano para obter benefícios de um voto de protesto. Se o PSD ganhar as eleições autárquicas não será de estranhar que Marques Mendes assuma a postura que o PSD tanto criticou quando o PS, após as eleições europeias, pretendeu retirar conclusões demagógicas e ilegítimas relativamente ao Governo de Durão Barroso. Um voto de protesto não deve desencadear nenhuma alteração no rumo da governação, muito menos se for no sentido do populismo e do facilitismo.

23.9.05

O país que temos

O mesmo povo que atestava a sua superioridade intelectual sobre os norte-americanos, a propósito da eleição de George W. Bush, é o mesmo que recebeu, em triunfo e êxtase, a foragida Fátima Felgueiras.
Essa é que é a dura realidade. O povo português, que todos gostam de apelidar de sábio e inteligente, na hora das eleições, é inculto, sem qualquer espírito cívico ou democrático, sem a mínima ideia do que é cidadania.
Desenganem-se aqueles que pensam que isto só acontece por ser em Felgueiras. O mesmo seria perfeitamente possível em cidades tão longe dos centros como Braga, Gondomar, Matosinhos ou Oeiras. Quem frequenta os sítios mais sofisticados do Porto e Lisboa, não conhece o que os rodeia, bem mais próximo deles do que imaginam.
Os portugueses avaliam aqueles que os governam de uma forma bem mais directa e imediata do que aquilo que os nossos líderes de opinião nos gostam de fazer crer.
Sócrates ganhou as eleições por maioria absoluta porque mentiu e disse que não aumentaria os impostos. Todos pensaram que o tempo das facilidades iria regressar. Por isso, agora, lhe falta a legitimidade para avançar a fundo. Por isso os professores, os juízes e os militares gritam que foram enganados, desesperados por perderem os seus privilégios injustificados.
Da mesma forma, um autarca é quase sempre visto como aquele que dá dinheiro, que aprova os projectos porque o conhecemos, lhe damos uma palmadinha nas costas quando o encontramos ou porque nos deve um favor. O autarca é quase sempre a face mais simpática do poder, pois é aquele que reivindica para a nossa terra. E, a partir daí, tudo o que vier é bom, por muito dispendiosa que seja a obra. Quem faz as leis e cobra os impostos são os malandros da capital, mas quem nos dá dinheiro e obra feita é o “Sr. Presidente”.
A juntar a tudo isto, vivemos num país hiper centralizado, onde, como já aqui referi, tudo se passa em Lisboa e alguma coisa (pouca) no Porto. Daí que as outras regiões clamem desesperadamente por atenção e se agarrem a qualquer bandeira que possam ter, por piores que sejam as razões. Por isso é muito difícil um presidente da câmara, que se torne visível a nível mediático, perder eleições em Portugal. Fátima Felgueiras, Mesquita Machado, Narciso Miranda e Valentim Loureiro, entre muitos outros, são as faces mais visíveis das suas cidades. E, numa sociedade centralizada, em que ser conhecido e aparecer na televisão justifica tudo, tal facto é extremamente importante e confere-lhes uma notoriedade muito difícil de combater.
Fátima Felgueiras, para muitos na sua terra, teve o condão de pôr a cidade no mapa, torná-la falada, alvo do interesse nacional e cliente habitual dos meios de comunicação social.
Ninguém duvide que, ontem e anteontem, a imprensa e a televisão, fizeram mais por Fátima Felgueiras do que cem comícios, vinte debates e quinze espaços de tempo de antena.
Entretanto, a nossa democracia vai caminhando para o estado de coma…

Uma questão de "know-how"

Maria João Lopo de Carvalho, assessora da vereadora da educação da Câmara Municipal de Lisboa, Helena Lopes da Costa, é sócia gerente da empresa que irá ser responsável pelas aulas de inglês em cerca de um quarto das escolas do 1º Ciclo do ensino básico de Lisboa.
A senhora não viu aqui qualquer problema de incompatibilidade ou mesmo de conflito de interesses.

22.9.05

Sociedade doente?

A triste verdade é esta: para uma grande parte dos portugueses (espero que não seja a maioria...) as práticas de corrupção e de tráfico de influências são perfeitamente legítimas desde que os beneficiem de alguma maneira. Só assim se explicam os casos de que Fátima Felgueiras é só o exemplo mais recente. Esta atitude, totalmente desadequada numa sociedade medianamente civilizada, só pode ser explicável por algum factor presente de forma generalizada na sociedade que cause esta inversão de valores. Com efeito, não é por acaso que as sociedades humanas classificam alguns comportamentos de "maus" ou "condenáveis" e outros de "bons" ou "louváveis". Isto ocorre porque, assim que os primeiros hominídeos se juntaram em pequenos grupos perceberam que dependiam uns dos outros para sobreviver e comportamentos como a traição, o roubo, a agressividade e a mentira não beneficiavam a coesão do grupo. Os elementos do grupo que assim procedessem eram marginalizados pois punham em causa a sobrevivência dos outros. Existe, assim, uma espécie de "código de conduta" social tácito, que é aprendido durante os primeiros anos de vida e que, ensinando os comportamentos e os valores mais adequados, permite a integração na sociedade e a convivência saudável entre as pessoas. Os desvios neste processo ocorrem frequentemente, muitas vezes por doença mental ou do comportamento, mas tendem a ser casos isolados que, infelizmente até são indevidamente marginalizados pela sociedade. Isto tudo para dizer que, ao contrário, o que se passa com parte da população portuguesa é que parece haver um desvio generalizado em relação às regras básicas de interacção social que condenam a corrupção, tráfico de influências, abuso de poder e outros comportamentos que já integraram o dia a dia de muitos portugueses.    

Bom exemplo

Fátima Felgueiras acabou por demonstrar que fugir à justiça compensa (pelo menos para alguns). Desde que tenha bons contactos (nomeadamente conhecer alguém que o avise antes das decisões serem tornadas públicas), não hesite, fuja…

A admiradora de Fátima

Ler o post de Ana Gomes (felizmente em Bruxelas) sobre esta mulher corajosa regressada de um longo exílio.

Justiça estranha

Ler o editorial de José Manuel Fernandes no Público (link não disponível).

A ler

“Justiça Cega”, por Eduardo Dâmaso, no DN.

Eu apenas diria que, mesmo formalmente, a decisão de ontem de mandar em liberdade Fátima Felgueiras deixa muitas dúvidas.
Como é que, sobre alguém que já fugiu, se pode considerar que não existe perigo de fuga pelo facto de ter regressado? Principalmente se tivermos em conta que tem sempre a possibilidade de voltar a fugir para um país de onde não pode ser deportada.
O que acontecerá se Fátima Felgueiras, eventualmente, for condenada e regressar ao Brasil para continuar o (inútil) tratamento de estética?

21.9.05

Sem Vergonha


As eleições autárquicas portuguesas são um espectáculo deprimente, nelas vemos o que de pior foi produzido pela nossa democracia: caciques, demagogos, suspeitos de corrupção, isto para usar eufemismos. Hoje mais uma página negra digna de um país de terceiro-mundo, é triste ter que assistir ao desplante de Fátima Felgueiras aproveitar a lei para ir fugindo à justiça, mas mais triste é saber que provavelmente ainda ganha as eleições. Triste povo o nosso…

Espectáculo triste

Não há palavras para classificar a vergonhosa aparição, quase triunfal, que Fátima Felgueiras fez hoje depois de uma inacreditável fuga à Justiça. O carácter nauseabundo deste caso, que tinha atingido níveis de despudor nunca antes vistos neste País, ao ferir gravemente e de forma ostensiva as instituições democráticas, reforçou-se mais ainda quando massas de populares se juntaram para aclamar a ex-autarca. Este fenómeno popular não é, infelizmente um caso pontual e particular de Felgueiras, justificado apenas pela pobreza, falta de cultura, miséria ou manipulação política. Casos como os de Felgueiras ocorreriam igualmente em Marco de Canavezes, Gondomar, Ponte de Lima e em dezenas (ou centenas) de outros locais pelo País fora. Penso que chegou a hora de reflectirmos nas verdadeiras causas deste verdadeiro endeusamento da corrupção e da vigarice.

20.9.05

Mourinho no balneário

Discurso de Mourinho depois de um jogo...

Novos tumultos no Fórum do Médico Interno

Estalou a polémica no Fórum dos Médicos Internos depois de uma intervenção de um anónimo que faz graves acusações relativamente à entrada, alegadamente fraudulenta, de dois internos no Internato Complementar. Imediatamente se levantaram vozes em defesa dos acusados mas outras exigem o esclarecimento de toda esta duvidosa situação. Um caso, que a ser confirmado pode ter graves repercussões judiciais pelo que merece um acompanhamento atento.

19.9.05

O "timing" presidencial II

Cavaco Silva apenas disse o que é óbvio.    

A velha questão...

Já aqui falei do problema dos direitos adquiridos, que impede toda e qualquer reforma que se pretenda fazer neste país, mas, a propósito da contestação que grande parte da nossa função pública se prepara para fazer ao governo, pelo corte de alguns previlégios e pelo fim da multiplicidade de regimes excepcionais que por aí vigoravam, devo dizer que tal facto apenas mostra que os sindicatos, pese a importância que têm numa democracia, são uma das principais razões do imobilismo do nosso país. Eu percebo que a função deles é defender a posição dos trabalhadores que representam, mas o radicalismo das suas posições é quase sempre difícil de compreender.
É a velha máxima dos direitos adquiridos e dos previlégios inalienáveis, tão ao gosto de homens como Carvalho da Silva. O mesmo que, juntamente com os membros do actual governo, criticou o novo Código do Trabalho, que como se pode ver agora nos relatórios internacionais em nada beliscou a forte posição que os trabalhadores detêm no nosso ordenamento jurídico.

O "timing" presidencial

Acho piada àqueles que têm criticado Cavaco Silva por ainda não ter anunciado a sua eventual candidatura. E ainda mais piada acho quando apelidam essa actuação de antidemocrática, por (dizem) não se poder discutir com tempo o modelo presidencial. E nem um possível desespero pelas últimas sondagens pode justificar tão peregrina ideia.
Em minha opinião, nada mais natural que Cavaco espere pelo final das eleições autárquicas. Independentemente da opção táctica que lhe é totalmente legítima, a bem da nossa democracia, é desejável que no período de campanha eleitoral autárquica se discuta os problemas e as propostas dos seus candidatos. Querer que agora se discutisse as eleições presidenciais era um profundo desrespeito pelo poder local e pelos seus candidatos. Isso sim é que poderia ser chamado de antidemocrático.
Os outros candidatos presidenciais apenas avançaram porque acharam que isso seria benéfico para os seus interesses pessoais e para a dinâmica da sua campanha.
Soares viu-se obrigado a avançar em Agosto para calar e afastar o mais rapidamente o seu amigo de longa data, Manuel Alegre. Ao contrário da ideia que quis passar, Soares impôs-se ao partido e ao país.
Jerónimo de Sousa e Louçã avançaram para, assim, poderem ganhar uma tribuna até Janeiro, visto que os seus candidatos autárquicos não conseguem grande visibilidade, em consequência da dimensão dos próprios partidos. Ora, num período de agitação eleitoral como o que vamos viver até Janeiro tal facto é crucial para manter bem vivo o seu eleitorado.
De Outubro até Janeiro não faltará tempo nem oportunidade para se discutir o país e as eleições presidenciais que se avizinham, pelo que, nesse aspecto, a democracia estará assegurada. Isto se o propósito dos candidatos for mesmo discutir ideias, porque, pela amostra que se tem visto dos candidatos que já andam no terreno, o ataque pessoal tem falado mais forte.