31.1.06

Quantos faltam?

Depois desta fúria demonstrada por Jorge Sampaio, nos últimos dias, em condecorar tudo o que mexa e se encontre nas imediações do Palácio de Belém, apenas pergunto se ainda sobrarão alguns para Cavaco Silva poder exercer a máxima graça presidencial?

30.1.06

O medo

Como era previsível, o discurso que se levantou contra a utilização abusiva das escutas telefónicas trouxe, à boleia, teses que põem em causa toda a política de investigação e a autoridade do Estado.
As declarações de Duarte Lima no parlamento, acompanhadas em tom apoteótico por aplausos de quase todos os deputados, em que aquele defendia que as escutas telefónicas apenas deveriam ser utilizadas em crimes como terrorismo ou tráfico de droga, deixando de lado os crimes de corrupção, são um mau sinal para a nossa democracia e fragilizam ainda mais o nosso poder político.
O nosso país, desde que vive em democracia, tem convivido mal com a autoridade do Estado, ainda assombrado por fantasmas do passado, fruto de um anacrónico complexo de esquerda que se levanta sempre que alguns direitos fundamentais são restringidos, ainda que levemente.
É óbvio que houve abusos e utilizações ilegais das escutas telefónicas. E ainda mais óbvio é que se tivemos conhecimento disso nos processos mais mediáticos, podemos imaginar o que se passará naqueles outros que ocupam anonimamente as prateleiras dos nossos tribunais.
No entanto, é muito perigoso que, numa louvável tentativa de acabar com esses abusos, se enverede numa total cegueira e se fragilize de forma irreparável a nossa política de investigação criminal e os seus agentes.
Para se investigar convenientemente é preciso limitar alguns direitos fundamentais e toda a sociedade deve estar preparada para isso. Devemos apertar o controlo dessa limitação, mas não podemos acabar com ela, sob pena de a criminalidade mais sofisticada e complexa escapar de vez à punição.
As declarações de Duarte Lima caem mal, principalmente vindas de quem vêm, se nos lembrarmos do seu passado, e o consenso que se gerou parece artificial.
Não podemos deixar que à boleia de alguns ideais bem intencionados, mas algo distantes da realidade, algumas entidades menos escrupulosas tentem ferir de morte a nossa já descredibilizada justiça criminal.
Os políticos deveriam ser os primeiros a perceber isso, até para seu próprio bem, pois é na sua classe que crimes como o de corrupção ganham maior relevância, daí o perigo dos caminhos que alguns parecem querer trilhar.
Num país em que os cidadãos defendem fanaticamente o seu direito de prioridade na rotunda a caminho de casa, mas onde o delito fiscal e a corrupção são pacificamente aceites e até envergonhadamente defendidos por muitos, seguir esse caminho seria um desastre para toda a democracia.  

28.1.06

As voltas que o mundo dá...

Acabo de ver numa reportagem da SIC-N, Joaquim Oliveira (o famigerado dono da Olivedesportos), ao lado de Maria José Ritta, num local reservado ao círculo mais próximo de Jorge Sampaio, no lançamento da fotobiografia do actual Presidente da República.
Ali, Sampaio falou do indesmentível poder da imagem. Eu acabei de me lembrar de outro...

Match Point


-I don't think this is a good idea. You shouldn't have followed me here.
-Do you feel guilty?
-Do you?

Tempos conturbados...

Os próximos tempos adivinham-se bastante problemáticos lá para os lados do Médio Oriente. A vitória dos fundamentalistas do Hamas veio agravar, de forma preocupante, a já tensa relação entre a Palestina e Israel. As manifestações populares com jovens empunhando armas e cartazes do saudoso Sheiq Yassin não auguram nada de bom. No Irão as sucessivas afirmações fanáticas e ameaçadoras do presidente são um sinal bem claro de que os tempos de Hitler não pertencem ao passado e podem voltar, de forma ainda mais dramática, a qualquer momento.
Como era de prever, a reacção da comunidade internacional, que deveria ser firme e imediata, está a ser boicotada por interesses particulares de alguns países como a Rússia e a China. Esperemos que o futuro não venha confirmar que George W. Bush foi um incompreendido no seu tempo...

27.1.06

Explicação

Neste blog procuro, sempre, fazer uma abordagem sobre o que de mais me preocupa na sociedade e mais concretamente na evolução do nosso país. Tento não entrar muito em questões meramente politicas, o que aliás, será o principal assunto de debate pelos ilustres contribuintes deste espaço. Se, como algumas vezes a minha mulher me acusa, de que as palavras que dactilografo possam parecer de uma pessoa que não gosta do seu país, ou de viver nele, peço desculpa por esse facto. No entanto, quero aqui publicamente transmitir que é por nutrir uma forte relação com este território que me sinto impotente e muitas vezes frustrado por nada puder fazer para mudar o rumo que leva. Nunca pensei em escrever publicamente num blog, ou em qualquer meio de fácil difusão, e confesso que não me achava capaz nem tenho talento nenhum para exprimir por escrito as minhas ideias. E é, isso sim, com força de vontade, que procuro em cada um de nós uma pequena mudança, no nosso trabalho, no nosso ciclo de amigos e principalmente na nossa consciência. A mudança está em pequenas atitudes nossas para que este país cresça não só economicamente nem culturalmente, mas sim a nível educacional e de integridade. Só com um país com a total ausência de corruptos, vigaristas, aldrabões e “chicos espertos” é que podemos pensar no nosso crescimento perante os países comunitários. Sem ter qualquer tipo de pretensão, é com a esperança de que as minhas ideias alcancem a nossa classe governativa, sindical e empresarial que, agradeço, desde já, a quem me deu a oportunidade de as transmitir neste blog.

26.1.06

A ler

“Refinaria em Sines”, por Paulo Gorjão, no Bloguítica.

Como sempre, concordando-se ou não com a sua posição, Paulo Gorjão lança questões muito pertinentes.

Très bien, M. Barroso

É uma pena que as televisões não tenham dado o devido relevo (pura e simplesmente ignoraram) à prestação de Durão Barroso, enquanto Presidente da Comissão Europeia, no Parlamento francês.
Nós que somos sempre tão lestos em criticar o que é nosso, também devíamos ter a mesma prontidão em elogiar o que sai destes lados.
Da mesma forma que se deve criticar Durão por ter abandonado o país na pior altura possível, devemos elogiá-lo quando ele o merecer.
Durão Barroso revelou-se destemido, extremamente combativo e corajoso na defesa dos interesses da Europa e da sua comissão, o que lhe valeu elogios de vários quadrantes e na imprensa francesa. Aliado a isso, exprimiu-se num francês perfeito, que não envergonharia quem lá nasceu.
Como resultado, a sessão foi extremamente interessante e viva, havendo aplausos, apupos, pateadas e manifestações de regozijo, como se Durão sempre tivesse feito carreira naquele hemiciclo.
Tomei conhecimento disto através do Blasfémias e perdi algum tempo a ver o desempenho do Presidente da Comissão, disponível no sítio da Assemblee Nacionale Française.
Quem desejar, pode também ver uma notícia da TF1 (o link para assistir à peça encontra-se abaixo do pequeno quadro de publicidade).
Mas a nosso comunicação social, como o já estafado complexo de esquerda…

Hamas

A confirmar-se a vitória do Hamas nas eleições Palestinianas, o processo de paz com Israel sofrerá um duro golpe e dificilmente se concretizarão quaisquer negociações entre os dois blocos. O futuro revela-se preocupante.

25.1.06

Má ideia

O ministro da Economia da Alemanha propôs que a União Europeia proibisse qualquer tipo de ajuda a empresas que deslocalizassem as suas unidades de produção no interior do território da União.  Com isto, pretende acabar esse tipo de deslocalização, principalmente para os novos países fruto do alargamento, e que tem resultado na perda de milhares de postos de trabalho nalguns países europeus, entre os quais se encontra Portugal.
As suas intenções até podem ser as melhores, mas caso a medida avançasse, o que iria acontecer é que em vez das fábricas se deslocarem no interior da União, começariam a deslocar-se para fora dela, o que seria ainda pior.    

A ler

“Como Jane Austen pode mudar a sua vida”, por João Pereira Coutinho, a propósito de Orgulho e Preconceito, na Folha. (via Origem das Espécies)

24.1.06

Reincidência

Hoje no Público, Vital Moreira repete as asneiras que ontem já tinha escrito no seu blogue.

A ouvir


Afinal ainda não tinha ouvido os melhores, LCD Soundsytem.

Não é só a lei...

Um dia destes tinha um julgamento marcado para o início da tarde num tribunal a cerca de 60 km da cidade onde trabalho e cuja estrada para lá chegar passa por montes e vales. Como tinha fundados receios que o julgamento não se realizasse, telefonei de manhã para o referido tribunal, onde me disseram que não seria possível dar essa informação.
Como era meu dever, dirigi-me pontualmente para o referido tribunal, tendo chegado ao local alguns minutos antes da hora marcada. Sendo o processo era de valor considerável, o juiz da audiência seria o juiz de círculo, ou seja, não residente naquela comarca, mas noutra de importância superior, e que apenas intervém nos processos de valor mais alto ou crimes mais graves. Juiz esse que, portanto, tal como eu, também teria de se deslocar a esse tribunal.
Lá chegado, esperei poucos minutos até que chegassem dois colegas que juntamente com outros dois, seriam os mandatários das outras partes envolvidas no processo.
Após termos aguardado mais de meia hora, sem que ninguém nos tivesse dito ou alertado para o que quer que fosse, dirigimo-nos à secretaria do tribunal. Aí fomos informados que senhor juiz estava ocupado num julgamento no tribunal sede do círculo e que não viria àquele tribunal. Julgamento esse que durava desde de manhã e que já estava anteriormente agendado!!!
Não houve uma única tentativa, de nenhum dos tribunais, de avisar os advogados intervenientes, apesar de todos os que compareceram terem telefonado de manhã para o tribunal, para se certificarem se o julgamento se iria realizar ou não.
Resultado, cerca de quatro horas de trabalho perdidas, mais uma série de deslocações desnecessárias e com custos para todos os intervenientes (advogados, respectivos clientes e testemunhas).
Estes problemas não se resolvem com novas leis ou com novas reformas, apenas exigem alguma consideração e espírito de colaboração, da parte de todos.

23.1.06

Mário Soares

Se o anúncio da sua candidatura foi muito surpreendente, o resultado que obteve nas eleições foi bastante previsível. Mário Soares foi claramente uma solução de recurso do PS que sabia, de antemão, que teria que enfrentar a temível candidatura de Cavaco Silva. Face à indisponibilidade de figuras como António Vitorino e António Guterres, que seriam candidatos indiscutivelmente fortes, a liderança do partido viu-se na incómoda situação de não ter um candidato presidencial com elevada notoriedade. A escolha de figuras de 2º plano, como Manuel Alegre (que já se tinha disponibilizado), seria certamente problemática pois encontraria resistências em facções do partido que reclamariam pela escolha de outro nome. Assim, dadas as difíceis circunstâncias, para encontrar alguém com notoriedade pública mantendo a unidade interna do PS, Sócrates viu-se constrangido a empurrar Mário Soares para a luta eleitoral, mesmo com pouca convicção. Ora, desde logo se viu que a candidatura de Mário Soares não tinha fundamento político e muito menos bases de apoio na população, era sim uma solução de último recurso, usada por Sócrates para não desprestigiar o maior partido português. Conseguiu-o, de facto, à custa da humilhação de Mário Soares que não merecia, pelo seu passado e pelos altos cargos que desempenhou, ter sido submetido a tão duro sacrifício. Felizmente, toda a gente percebeu que Mário Soares não participou genuinamente nestas eleições e isso atenua as consequências pessoais e políticas para o candidato derrotado do PS.

Manuel Alegre

O resultado de Manuel Alegre, apesar de extraordinário, não é totalmente surpreendente. De facto, vários factores favoreceram o desempenho da sua candidatura.
Em primeiro lugar, a candidatura de Mário Soares foi encarada por muitos socialistas como pouco credível e até mesmo absurda, o que provocou uma cisão dentro do próprio PS, que nem mesmo a obrigação de alinhamento partidário pôde evitar. Este sentimento de descrença em Mário Soares sentiu-se ainda mais nas camadas populares afectas ao partido socialista que se viraram para Manuel Alegre como opção lógica. A ter existido uma candidatura forte no PS, Manuel Alegre não teria certamente tantas facilidades.
Por outro lado, a condição de candidato não oficial do PS pode ter favorecido Alegre na medida em que o libertou da herança do Governo de Sócrates que, em face das medidas impopulares que tem tomado, vem criando animosidade na população. Se Manuel Alegre surgisse ao lado do primeiro-ministro e dos ministros do Governo durante a campanha, teria provavelmente suscitado reacções adversas de muitos eleitores.
O mérito de Alegre tem, apesar de tudo, de ser reconhecido. Apesar de ter muitas vezes afirmado que o seu objectivo era derrotar Cavaco Silva, o seu discurso não se limitou a isso, e talvez por não ter sido apenas um instrumento partidário, enriqueceu a campanha com ideias políticas próprias, o que é de louvar.

Cavaco Silva

Não há muito mais a dizer sobre o próximo Presidente de Portugal. A sua eleição é totalmente merecida e justa, ainda para mais quando foi o único candidato a apresentar-se pela positiva a estas eleições, afirmando os seus méritos e divulgando as suas ideias. Ao contrário, todas as outras candidaturas foram originadas pela tentativa desesperada de evitar, a todo o custo, a eleição do "candidato da direita".
As características que tantas vezes são apontadas como os defeitos de Cavaco, como a sua rigidez e falta de espontaneidade, são precisamente a garantia que o seu mandato será pautado pela estabilidade e exigência. Assim, o desempenho de Cavaco não dependerá tanto dos circunstacialismos do momento, nem de manobras políticas, mas estará subjugado a um rumo estratégico de longo prazo que deverá conhecer poucas oscilações. Nesse particular, penso que devem estar descansados todos os que temem a confrontação com o Governo.
Quanto à dimensão da vitória de Cavaco Silva, esta foi realmente inferior à de outros presidentes que obtiveram percentagens bem acima dos 50%. Porém, não se pode ignorar, e fazê-lo seria pouco sério, que Cavaco enfrentou 5 candidatos à sua esquerda, o que nestas condições é um resultado inédito para uma primeira volta. Nem será preciso referir, para avaliar a verdadeira natureza da vitória, que o segundo mais votado ficou a 30 pontos de distância.
A não eleição de Cavaco Silva seria grave, não pela derrota em si, mas porque significaria a vitória de um anti-candidato.

Jerónimo mostra os dentes


Jerónimo de Sousa fez ontem um discurso inaceitável numa democracia, típico de um estalinista empedernido. Aliás penso que ele sabe bem capitalizar aquela imagem de gajo simpático e afável que a nossa comunicação social gosta de passar, tenho sérias dúvidas quanto à verdadeira espontaneidade. Não é tolo nenhum, a imagem vale tudo. Não devemos esquecer o verdadeiro Jerónimo.

Blogues

Hoje (e não é por Cavaco ter ganho) são muitos os blogues que valem a pena ler, demasiados para fazer link. Sem dúvida que análise política mais interessante já não é feita só nos media tradicionais.

Malucos do Riso

Há muito que não via um dos melhores programas de humor na televisão, o Opinião Pública na SIC-N. Alguém tenta explicar a derrota de Soares como resultado de uma conspiração internacional: "Ele pagou a factura de ter sido contra os americanos no Iraque...".