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11.10.07

NHS e SNS

O estado do Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido (NHS) é notícia hoje nos meios de comunicação por mais um triste episódio que é um bom indicador da situação preocupante que se vive neste país. Uma Comissão de Saúde que investigou níveis alarmante de infecção por Clostridium difficile com elevadas taxas de mortalidade nos doentes publicou um relatório devastador para a qualidade dos serviços de saúde prestados no Hospital de Maidstone. As notícias sobre problemas no NHS são frequentes e, apesar do dinheiro gasto, os indicadores de saúde e de satisfação dos utentes não têm melhorado. Em Agosto, num relatório comparativo com outros países europeus, o Reino Unido surgia ao lado de países do Leste europeu nos níveis de sobrevivência por cancro quando é dos países que mais gasta no diagnóstico e tratamentos oncológicos. Curiosamente, o actual estado do NHS é o resultado de políticas que se apoiaram numa progressiva mas sustentada deterioração do estatuto profissional dos médicos e dos profissionais de saúde, como alguns defendem para Portugal. Após a abertura de vagas de Medicina em excesso, e com o "mercado a funcionar" os Hospitais-empresa basearam as suas contratações em mão de obra barata, desesperada por aceitar qualquer lugar mesmo que indiferenciado, e numa medicina "a peso" que valoriza a quantidade em desfavor da qualidade. Se é verdade, como alguns dizem, que o Reino Unido está uns anos à frente de Portugal, então ainda vamos a tempo de aprender com os erros deles...

8.10.07

Medicina

"O Governo quer alargar de 1400 para dois mil o número de vagas em Medicina, anunciou hoje o ministro da Saúde, António Correia de Campos, sem avançar um prazo para atingir o objectivo."

Quando se fala em aumentar o número de vagas em medicina, esquece-se muitas vezes que no percurso da carreira médica existem actualmente dois grandes filtros, primeiro a entrada na universidade, que é exigente, tirando as habituais chico-espertices portuguesas: estatutos de alta competição, regiões autónomas, emigração, via militar, transferências, etc. Exceptuando estes últimos, todos têm que se esforçar bastante para ingressar no curso de medicina.
Depois no final do curso, aparece um novo filtro, que é a escolha da especialidade. Sobre isto, nunca ouvi o ministro falar. Por exemplo, o ministro quando fala em produtividade dos blocos operatórios, tem em consideração aqueles em que intervêm internos onde obviamente o número de cirurgias realizadas tem que ser inferior. Quando o ministro fala em novos horários ou incentiva o abandono da carreira hospitalar, está a considerar que muitos serviços podem perder subitamente a capacidade de formação? O ministro sabe se é possível formar 2000 internos por ano o que é totalmente diferente de licenciar 2000 médicos? Alguém me explica como se ingressa em determinadas especialidades no Algarve ou no interior e passado uns meses, por artes mágicas, já se está num grande hospital central que não tem qualquer carência dessa mesma especialidade (para não falar de histórias ainda mais obscuras)?

Claro que vão dizer, que eu como médico o que quero é falta de concorrência e garantir o meu lugar. Mas quando se olha para as estatísticas e vemos que o número de médicos por habitante não é inferior à média europeia, e sabemos o que nosso país foi possível fazer em determinados cursos, o panorama não parece animador.

Relativamente ao nosso futuro (dos médicos), acabo com as palavras de Isabel Vaz, responsável pelo Espírito Santo Saúde, melhor que o negócio da saúde só o tráfico de armas (cito de cor). E certamente que não serão os médicos os beneficiários deste negócio...

Outros horizontes

"Ensino Médico e Crenças Religiosas" por Pedro Morgado, n'Avenida Central.

19.9.07

A propósito das vagas de Medicina

É com bastante apreensão que verifico, ano após ano, o aumento das vagas nos cursos de Medicina nas Universidades portuguesas. Quem conhecer o meio reconhecerá facilmente que esta medida, embora acolha elogios generalizados da população, não é mais do que a materialização de uma política mais abrangente. Com efeito, a classe médica está neste momento a ser alvo, depois dos professores e dos advogados, da estratégia de aumentar em excesso a oferta de profissionais. Isso permite ao Governo introduzir medidas no sistema de saúde que não seriam possíveis sem um enfraquecimento premeditado da classe médica. Além disso, a médio e longo prazo, poderá vir até a reduzir os custos com remunerações. A grande questão que me preocupa não é, de modo nenhum a introdução de medidas impopulares para os médicos na reforma da saúde. Antes pelo contrário, penso que elas são importantes e devem ser implementadas para por fim a abusos que todos conhecemos (e que são transversais à função pública). A minha preocupação situa-se nos efeitos graves que o enfraquecimento do poder da classe médica poderá vir a ter na relação médico-doente. Qualquer acto médico tem que ser centrado numa relação de confiança entre o doente e o médico, relegando a instituição hospitalar para um papel de suporte e de integração dos cuidados de saúde. No entanto, o que se tem vindo a assistir é uma transformação progressiva do médico num técnico que presta unicamente um serviço numa empresa (hospital) a um cliente que a ela recorre (doente). A relação médico-doente está assim a ser substituída pela relação hospital-cliente. Receio que esta alteração, embora possa ser atraente para alguns decisores políticos, não beneficie médicos ou doentes.