30.5.06

Educação e avaliação de professores

A recente polémica da avaliação dos professores pelos pais dos alunos suscita-me várias reflexões. Em primeiro lugar, ideia de que os professores receiam as "avaliações" é, quanto a mim, falsa. De facto, a formação contínua e a avaliação de desempenho é não só desejada como até exigida pela maioria dos professores competentes, que não vêem traduzido o seu empenho na progressão da carreira ou no salário mensal, relativamente a colegas desinteressados. A imagem vulgarmente transmitida de que os funcionários públicos são ociosos e resistentes à mudança em nada corresponde à revolta e ao inconformismo de muitos profissionais que, desejando produzir mais, se vêem constrangidos pelas resistências da organização do Estado. A Função Pública caracteriza-se, isso sim, pela elevada resistência à iniciativa individual e pelo nivelamento mínimo, onde os que querem fazer mais são olhados com desconfiança. Neste contexto, qualquer avaliação a nível individual fica altamente distorcida, uma vez que raramente um só profissional pode ser responsabilizado pelas incapacidades do sistema. Acresce que, num sistema tão complexo como é uma Escola, a avaliação individual de cada professor é ainda mais difícil. De facto, os resultados do trabalho do professor não se traduzem por dados objectivos e imediatos, proporcionais ao seu empenho e competência. O desempenho escolar de um aluno é influenciado por inúmeros factores, desde logo, as suas capacidades cognitivas, o ambiente socio-económico e o contexto familiar. Assim, nunca será possível avaliar com critérios semelhantes professores colocados em escolas diferentes e, mesmo na mesma escola, a realidade de cada turma é única. Por outro lado, a análise de fenómenos como o insucesso e o abandono escolar tem sido demasiado focada na relação professor-aluno. Ora, apesar de ser o professor que está em contacto mais próximo com os alunos, não é este profissional que está em condições de intervir nas causas primárias destes problemas. Assim, ao detectar um aluno com dificuldades educativas, um professor deveria ter a possibilidade de, imediatamente, iniciar uma avaliação socio-familiar e psicológica com profissionais especializados. O trabalho e o resultado de um professor não depende essencialmente dele, mas sim das estruturas de apoio que tem à disposição. Querer responsabilizar a escola, isto é, os professores, das elevadas taxas de insucesso escolar é uma forma fácil de fugir à realidade.

1 comentário:

LFM disse...

Estamos a convergir . . .